Heráclito de Éfeso
Um dos principais filósofos da Grécia antiga, as concepções de Heráclito de Éfeso foram na história do pensamento objeto de fascinação e repúdio, de interesse e críticas, de estudos e especulações, servindo, direta ou indiretamente, tanto de inspiração como de vigoroso desafio em diferentes épocas para diversos pensadores e distintas escolas de pensamento.
Chamado de “O Obscuro” na antiguidade, o estilo altivo, assertivo, imperativo, luminoso e enigmático a um só tempo, pode ser visto como expressão da personalidade e experiência do aristocrata por descendência, do pensador solitário na polis, crítico do seu entorno, crítico da tradição e das escolas filosóficas, crítico tanto do pensamento vulgar como da erudição dos que tudo explicam e pouco ou nada sabem, perdidos na empiria e na extensão descoordenada e desordenada dos saberes particulares.
“Tudo flui” e “A guerra (pólemos) é o pai e o rei de todas as coisas” sintetizam a visão heraclitiana da realidade como fluxo incessante. A mudança, a transformação é a única constante na realidade, só a mudança é permanente. A mudança, isto é, o fluir das coisas e dos seres como produto do conflito, da contradição no cerne da real, a negação inerente ao âmago de todo ser, de todas as entidades, expressa na guerra que tanto divide quanto une adversários. A guerra relaciona, une os combatentes no confronto, na oposição mútua, e deste modo, a oposição universal se transforma em identidade, equilíbrio e harmonia dos contrários.
Assim, a substância primordial para Heráclito é o fogo que se consome e se renova, consome e renova todas as coisas, o fogo: tanto imagem como elemento essencial da physis.
“(Fogo:) carência e abundância” (fragmento 65, G. Bornheim).
“O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam as mercadorias por ouro e o ouro por mercadorias” (fragmento 90, G. Bornheim).
O fogo é assim mediador universal, o movimento da realidade é criação e destruição constante pelo fogo. E este movimento é a unidade dos contrários: do gerado e do não-gerado, do mortal e do imortal, etc.
“Não de mim, mas do logos tendo ouvido, é sábio homologar tudo é um” (fragmento 50, J.C. de Souza). A ordem universal não é concepção subjetiva mas expressão do logos.
“A todos os homens é permitido o conhecimento de si mesmos e o pensamento correto” (fragmento 116, G. Bornheim)” E deste modo, Heráclito, o pensador altivo e crítico do vulgo, se mostra como fiador da inteligência humana universal.
“Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio” (fragmento 91, G. Bornheim) resume a transformação universal que ecoa também na experiência humana do tempo: nem o rio é o mesmo, nem nós somos.
Marcelo Guimarães Lima
Heráclito - Fragmentos,
Gerd Bornheim - Os Filósofos Pré-Socráticos, 1972, São Paulo
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