Sócrates e seu tempo
A observação de W.Guthrie sobre os sofistas de que é impossível compreendê-los sem levar em consideração um círculo extenso de autores à época e o clima contemporâneo do pensamento (W. Guthrie, The Sophists, Cambridge U. Press, 1971 ) aplica-se, naturalmente, à compreensão das ideias e da intervenção de Sócrates no período. “A filosofia em meados do sec. V a.C., observa Guthrie, estava intimamente relacionada aos os problemas da vida prática, com perspectivas sobre a moral e a política e a origem e finalidade das sociedades organizadas.”
O contexto no qual Sócrates desenvolve sua atividade filosófica pode ser caracterizado, a partir da argumentação de Marilena Chauí, em relação aos seguintes tópicos, que passaremos a examinar de modo sucinto.
- O DOMÍNIO DE ATENAS
- PÉRICLES: O DESAFIO DA DEMOCRACIA
- O “SÉCULO DE PÉRICLES” E A CRIAÇÃO CULTURAL EM ATENAS
A TRAGÉDIA
AS TÉCNICAS
A MEDICINA
- OS SOFISTAS: A RAZÃO COMO PRÁTICA SOCIAL
O DOMÍNIO DE ATENAS
Atenas surge vitoriosa da guerra contra os Persas (período das Guerras Médicas ou Guerras Medas, 499 a.C. – 449 a.C.) e consolida sua hegemonia na Grécia como potência militar, poder político de aspiração dominante, centro comercial e industrial (artesanato) e centro cultural e artístico. A filosofia que se desenvolveu inicialmente na “periferia” do mundo grego, na Jônia e na Magna Grécia, translada-se para Atenas.
Sob a liderança de Péricles (c. 495/492 a.C. – 429 a.C) o poderio de Atenas se afirma no período de consolidação das instituições da democracia, o governo dos cidadãos organizados em assembleias deliberativas. O desenvolvimento das instituições políticas da democracia ateniense tem origem nas reformas de Solon (594 a.C.) que visavam a separação entre o poder familiar e aristocrático, baseado nos laços de sangue da nobreza fundiária e militar, isto é, das oligarquias em disputas constantes, e a cidadania abrangente, não mais restrita ao parentesco e suas alianças, e que incluía direitos de participação das classes de comerciantes e artesãos.
Cópia romana em mármore de um original grego, c. 430 a.C.
(Museus Vaticanos, Roma). Fonte: Wikipedia
PÉRICLES: O DESAFIO DA DEMOCRACIA
Às reformas de Solon, contestadas repetidamente pelas oligarquias, segue-se a reforma de Clístenes (510 a.C.) que consolida um modelo de organização social e política de repartição e exercício do poder pelo conjunto da cidadania organizada em assembleias: o poder do demos ou démoi, os cidadãos que exercem em conjunto o poder deliberativo com base na isonomia (igualdade) e isegoria (direito à palavra).
É no chamado “Século de Péricles”, entre 440 e 404 a.C., o auge do período democrático, que se consolida a liderança cultural de Atenas como modelo da vida intelectual e artística na Grécia e no mundo antigo em geral.
O “SÉCULO DE PÉRICLES” E A CRIAÇÃO CULTURAL EM ATENAS
Segundo Marilena Chauí (Introdução à História da Filosofia, v1) a criação cultural na Atenas democrática desenvolve novas formas artísticas e intelectuais bem como novas práticas produtivas e profissionais de que são exemplos a Tragédia, as Artes Industriais (as novas formas e novas tecnologias relacionadas às artes plásticas, a arquitetura, o artesanato), a Medicina, a Sofística, a Filosofia Socrática.
Dioniso (sentado em um trono) com Hélio,
Afrodite e outros deuses. Afresco de Pompéia.
Fonte: Wikipedia
A TRAGÉDIA
A Tragédia, gênero dramático e literário, tem origem no culto e nos rituais relacionados a Dionísio (Baco), divindade do vinho, dos ciclos vitais, do êxtase e da possessão divina, do desregramento nos rituais sigilosos nas confrarias ou irmandades, da loucura temporária ou definitiva e do teatro. A representação trágica, vertente fundamental do teatro na Grécia Antiga, se organiza na relação entre os atores e o coro, os personagens individuais e o personagem coletivo.
As representações das aventuras e desventuras dos heróis lendários e mitológicos por atores profissionais no palco, diz respeito à herança aristocrática da sociedade grega: guerreiros, líderes, os heróis mortais e suas relações com os deuses imortais.
O coro, composto por cidadãos comuns, comenta, indaga, responde às ações no palco como um único personagem. Ele representa a coletividade que reflete e avalia sua proximidade e distância de suas divindades e heróis, reflete seu passado atualizado no mito, isto é, o processo de sua constituição e seus dilemas ou questões perenes e atuais, e o dilema fundamental do destino humano que se impõe como uma espécie de lei divina incontornável.
O herói trágico, como, por exemplo, Édipo, sem o saber cumpre seu destino por meio das vicissitudes da sua trajetória, de fato seus próprios atos e decisões, que inicialmente pareciam afastá-lo de sua sina, sina que ele desconhece até a revelação final, o desfecho da narrativa trágica.
A tragédia expõe o conflito do herói com o seu contexto humano e divino. De um lado, a tragédia reflete o conflito interno entre a afirmação de si, a vontade ou as paixões do indivíduo, e o dever comunitário, dever do sangue e da religião na tradição da dike (justiça) aristocrática em contraste ao dever da lei instituída na polis da democracia. Entre a afirmação própria como transgressão e a necessidade, o destino que se cumpre como punição, imposição mundana ou justiça divina.
O herói trágico ao final expia a culpa da sua transgressão, inconsciente ou não, e seus infortúnios e sofrimento, pelo processo de catarse (identificação emocional, sofrimento vicário) próprio, segundo Aristóteles, da representação dramática, nos liberta, nós espectadores, destas paixões e exemplarmente da húbris (desmedida, arrogância) que arrasta exemplarmente e inexoravelmente o ser humano tomado pela paixão para o seu fim.
Por outro lado, como instituição da pólis, na tragédia são refletidas a passagem da lei do sangue (liame de natureza) à lei da polis (auto-instituída), o conflito entre a lei divina e a lei humana como ao mesmo tempo impasse e possível "superação dialética", isto é, no próprio conflito, do destino cego e da culpa universal e inapelável naquilo que o herói trágico tem de exemplar para nós.
Na tragédia se cotejam de maneira complexa, isto é, a um só tempo calamitosa e afirmativa, tanto as ilusões e a fragilidade como a dignidade da condição humana, o sofrimento e a afirmação de si no infortúnio e na morte.
O desenvolvimento material na sociedade grega implica o desenvolvimento técnico. A técnica é ação eficaz com conhecimento de causa (racional, universal), ação na matéria que a transforma no sentido das suas potencialidades, isto é, suas qualidades próprias, de acordo com a natureza própria dos diversos materiais empregados pelos artesãos.
Igualmente, ação na sociedade, isto é, no âmbito da participação pública que a democracia requer e os conhecimentos necessários para tanto, ação tendo em vista o ser humano como membro da comunidade, isto é, ação sobre a constituição física e mental dos indivíduos que visa, de acordo com as finalidades da vida em sociedade, o bem-estar do corpo, a saúde do corpo e a saúde da alma, na medicina e também na filosofia.
Seja na filosofia socrática na qual conhecimento da verdade e ação justa se implicam mutuamente, seja, por contraste, na sofística na qual o conhecimento não busca a “verdade em si” das coisas (problemática contestada pelos sofistas) mas a eficácia nas relações sociais como técnica de argumentação e persuasão, intervenção pública na vida institucional da pólis.
A MEDICINA
A medicina na Grécia antiga se desenvolve como campo autônomo de conhecimento baseado na observação e na sistematização do conhecimento empírico por meio de princípios racionais. A medicina na Grécia antiga se afasta das concepções religiosas sobre as afecções do corpo e da mente, e o conhecimento médico, que podemos chamar de “naturalista” pois considera o homem na sua relação essencial à natureza, bem como à sociedade, terá influência na filosofia, como afirma Marilena Chauí, tanto no período último da filosofia pré-socrática como em Sócrates e nos sofistas.
A harmonia dos contrários, que vimos com Heráclito, é uma ideia central da medicina, a intervenção do médico na doença visa a restabelecer a proporção harmoniosa dos elementos do corpo: o úmido e o seco, o quente e o frio, a falta ou o excesso de alimentação, atividade, repouso, etc. A doença não é causada pela intervenção de entidades divinas, sobrenaturais, mas perda de equilíbrio dos elementos essenciais que compõe a natureza humana tanto no seu aspecto universal quanto no aspecto individual.
O médico indaga do paciente sobre suas condições e os eventos da sua vida para descobrir o contexto de irrupção da doença, identificar o desequilíbrio e promover a cura, processo no qual o paciente é colaborador participante como interlocutor num diálogo conduzido pelo médico que visa, tal como no método do diálogo que será desenvolvido por Sócrates, a partilha e o desenvolvimento colaborativo do conhecimento que propicia a intervenção eficaz do médico para a saúde do paciente. De modo similar, a dialética socrática é ao mesmo tempo confronto de ideias e partilha do conhecimento desenvolvido no e através do diálogo.
A saúde é harmonia da natureza individual e da natureza universal, equilíbrio interno próprio do indivíduo e equilíbrio externo do indivíduo em seu contexto. O conhecimento médico é conhecimento da physis universal e da physis individual, da natureza na sua universalidade e na sua particularidade, e a arte da medicina é a que busca colaborar com os processos naturais de equilibro e intervir quando necessário para restaurar o curso natural das atividades e processos corporais associados. A noção de harmonia diz respeito ao equilibro integral do ser humana, a harmonia entre corpo e alma, entre a natureza individual e a physis universal.
Se a medicina se desenvolve como disciplina prática autônoma, baseada na experiência sistematizada e visando a ação eficaz para a saúde do indivíduo, é também evidente que há um solo cultural comum, perspectivas gerais partilhadas entre medicina e filosofia, bem como entre estas e as artes (artesanato, pintura, escultura, arquitetura), e a reflexão sobre o equilíbrio na sociedade, na conduta e nas relações humanas.
A SOFÍSTICA
A sofística é a prática pedagógica que visa o aprendizado da ação eficaz na sociedade, o conhecimento compreendido como conhecimento que serve à ação, em última instância, o conhecimento como forma de poder.
Assim, os sofistas são, antes de tudo, educadores, são profissionais itinerantes da educação, recebem pelos seus serviços. São eruditos, detentores de conhecimentos variados, e igualmente filósofos na medida em que indagam e respondem sobre as questões do conhecimento e do ser. Seus variados conhecimentos e ensinamentos tem como núcleo a arte da palavra: a argumentação, a persuasão, a retórica.
Daí a centralidade da atuação dos sofistas numa sociedade regida por princípios de participação democrática nas instituições políticas da cidade-estado, a democracia da palavra e do poder das assembleias que dirigem as ações do estado.
Daí igualmente a oposição ferrenha que sofreram dos que, de diferentes maneiras, se alinhavam às formas e noções tradicionais (aristocráticas) do poder. A história dos sofistas que conhecemos foram escritas por seus adversários, entre eles Platão. O Sócrates platônico se dedica ao conhecimento filosófico como conhecimento autônomo e sua ação pedagógica, a tarefa que lhe foi inspirada pela chamado e pela divisa do deus Apolo, a tarefa do autoconhecimento é exercida gratuitamente para todos aqueles que se interessam pelo conhecimento efetivo da realidade humana e divina.
De modo geral, podemos assinalar para as questões filosóficas que se ocuparam os sofistas duas abordagens essenciais: o que poderíamos chamar de perspectivismo na afirmação de Protágoras que o homem é a medida de todas as coisas do ser como tal e do não-ser, quer dizer, a relatividade de todo conhecimento, e a centralidade da questão da linguagem, ou seja, a mediação da linguagem no conhecimento que implica, em última instância, a não-coincidência do ser e do pensar como afirmada por Parmênides, entre outros.

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