PARMÊNIDES
A proposição fundamental de Parmênides: “o Ser é, o Não-Ser não é” pode parecer inicialmente tautológica, meramente reiterativa, circular, isto é, afirmação que nada acrescenta, mas apenas reproduz o uso geral, o uso comum dos termos na linguagem. E, no entanto, enquanto conceitualização filosófica, a proposição de Parmênides seria, ou é de fato, de natureza propriamente, inextricavelmente, lógica e ontológica (metafísica).
De um lado afirmação forte, assertiva no contexto da filosofia nascente, contra as vagarias do pensamento vulgar, afirmação do princípio de identidade segundo o qual algo não pode ser e não-ser ao mesmo tempo. A identidade própria não comporta em si o seu outro ou seu contrário, de fato a identidade, o ser próprio, exclui, e não pode deixar de fazê-lo, a alteridade, o ser outro. De outro lado, ou concomitantemente, a postulação do princípio lógico da não-contradição, a impossibilidade de se afirmar ao mesmo tempo, algo e seu contrário.
Os dois princípios , estão intimamente, mutuamente relacionados como dois aspectos de uma única perspectiva, pois o dizer, a razão, o Logos, exprime aquilo que é:
“Pensar e Ser é o mesmo”. (fragmento 3, G. Bornheim)
Apenas o Ser pode ser pensado / expresso. O que pode ser pensado / expresso é. O Pensamento e a Linguagem se fundamentam no domínio do Real, do Ser, da Verdade, tanto quanto o Ser se apresenta, revela, se des-vela (Aletheia), se desoculta (segundo a interpretação filosófica-etimológica de Heidegger sobre o conceito de verdade) no e pelo Pensamento.
“O mesmo é pensar e o pensamento de que o ser é, pois jamais encontrarás o pensamento sem o ser, no qual é expressado. Nada é e nada poderá ser fora do ser, pois Moira o encadeou de tal modo que seja completo e imóvel. Em consequência será (apenas) nome tudo o que os mortais designaram, persuadidos de que fosse verdade: geração e morte, ser e não-ser, mudança de lugar e modificação do brilho das cores.” (fragmento 8, G. Bornheim)
O evidente contraste entre as formulações de Parmênides e as de Heráclito na filosofia grega antiga, suscitou a consideração de uma espécie de embate filosófico entre os dois pensadores cujos escritos refletiriam leituras e críticas mútuas, cabendo aos especialistas apontar a prioridade de um ou outro na discussão ou argumentação literária. Segundo Nestor Cordero (1), ainda que contemporâneos, os dois filósofos, ao que tudo indica, não tinham conhecimento um do outro. Questão ainda debatida por alguns especialistas.
Como observa Marilena Chauí, as dificuldades de compreensão e esclarecimento do pensamento e das formulações de Parmênides não são apenas nossas, mas também de seus contemporâneos e sucessores na Grécia. De resto, as muitas leituras e controvérsias sobre os mais importantes pensadores pré-socráticos em seus contextos e no desenvolvimento posterior da filosofia, indicam a complexidade e importância do trabalho pioneiro destes filósofos na criação conceitual. Criação conceitual que define histórica e estruturalmente a filosofia e a impulsiona no tempo.
Neste sentido, como observou Emanuele Severino (2), “a filosofia já nasce grande”, nasce "completa" na medida em que não balbucia, mas desde o início apresenta o essencial, os elementos fundamentais para seu devir histórico, como uma totalidade estruturada do pensamento face à totalidade do real natural (a physis) e humano (a polis), totalidade que é seu objeto e domínio.
Marcelo Guimarães Lima
(1) Nestor-Luis Cordero, By being, it is: the thesis of Parmenides, 2004, transl. D. Livingstone
(2) Emanuele Severino, La Filosofia Antigua, Ariel, 1986, trad. J. Bignozzi
Referência: G. Bornheim, Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1972
revisão 18/05/2023
Comentários
Postar um comentário