A filosofia pré-socrática
O período chamado “Pré-socrático” é o período inaugural da filosofia. Neste sentido, ele foi apresentado e compreendido, na tradição iniciada com Sócrates e codificada por seus discípulos, como momento primeiro de um desenvolvimento ulterior. Desenvolvimento que, a partir de Sócrates e seus discípulos, recolhe e seleciona a perspectiva e herança conceitual dos primeiros filósofos para criticá-la e ultrapassá-la.
A obra, isto é, a atividade filosófica de Sócrates, recolhida, registrada e reelaborada por seus discípulos, significou uma espécie de “giro copernicano” na orientação e impulso inicial da filosofia e colocou as bases do desenvolvimento futuro a partir de Platão, Aristóteles e os demais pensadores socráticos e pós-socráticos. Sócrates reorienta a indagação filosófica da cosmologia, da investigação da natureza (physis) para o foco no mundo humano da sociabilidade, da conduta e das formas de pensamento.
De modo geral, a história da filosofia consagrou esta visão até Nietzsche. Nietzsche se contrapõe com vigor à visão racionalista-iluminista da filosofia e de seu desenvolvimento histórico a partir dos pré-socráticos, visão propriamente retrospectiva, isto é, filtrada e projetada pela herança platônica- aristotélica e cristã na civilização europeia.
Nietzsche revela as polaridades e tensões que habitam a cultura grega antiga e suas manifestações opondo as formas apolíneas da medida e da harmonia à desmesura e o arrebatamento da experiência dionisíaca do ser, a afirmação da vida em meio às contradições irremediáveis da realidade humana e do universo. A crítica de Nietzsche ao platonismo-cristianismo que institui uma clivagem no real entre um mundo real-ideal e um mundo material privado de valor próprio, repercute na consideração da filosofia pré-socrática como portadora de uma visão própria, uma perspectiva agonística da realidade, isto é, a visão trágica comum aos primeiros filósofos e os poetas trágicos(1)
No século XX o filósofo Martin Heidegger desenvolve uma abordagem da filosofia pré-socrática contra o que considera a apropriação e deformação desta na tradição racionalista-cristã ocidental. A filosofia pré-socrática surge assim como fonte original encoberta pela tradição. Para Heidegger, em sua leitura particular da filosofia antiga e da filosofia como tal, haveria uma contribuição dos pré-socráticos para a tarefa de pensar a atualidade da condição humana, pensar o pensamento (a filosofia e a pós-filosofia) e o destino da cultura em meio a crise da civilização europeia no período entre as guerras mundiais.
Com formulações por vezes de estilo “oracular”, Heidegger quer resgatar o sentido primordial do pensamento e da experiência do “Ser enquanto Ser” na filosofia grega antiga, para além dos dualismos metafísicos e epistemológicos da história posterior, a história vigente do destino planetário da civilização europeia e sua clausura histórica.
Para muitos especialistas, as considerações de Heidegger, por vezes instigantes e muitas vezes obscuras, serviram para motivar controvérsias e provocar respostas ulteriores, repercutindo tanto em contestações vigorosas como em novas investigações, algumas revisões e perspectivas alargadas de temas consagrados na história da filosofia antiga e contemporânea.
O que podemos reter das ideias de Heidegger é a afirmação da importância da filosofia pré-socrática como tal. Se, por um lado, como uma espécie de “heideggerianismo” avant la lettre (projeção), por outro, malgrado todas as dificuldades materiais e históricas (fontes, recepção, interpretações sedimentadas, etc) para a justa compreensão dos primórdios da filosofia, como fonte de desafios conceituais originais e originários para o pensamento hoje.
A compreensão justa da filosofia pré-socrática, da sua problemática original, nos ajudaria a superar os impasses, as limitações da filosofia em nosso contexto reformulando a herança do pensamento que é a nossa, ao mesmo tempo descortinando a crise contemporânea, que não é apenas intelectual mas epocal, e adumbrando possibilidades novas de pensar a história, isto é, a vida humana e o destino planetário da humanidade atual.
Conceitos originais
Conceitos comuns aos filósofos pré-socráticos, conceitos próprios do nascedouro da filosofia na reflexão cosmológica são:
Arché – Arkhé :
princípio, início, elemento constitutivo básico, substância básica, comando, ordenação.
A busca pela arkhé tem como finalidade ordenar a multiplicidade das coisas e seres no mundo sob um princípio único ou substância única.
Physis:
Natureza enquanto
1) processo de geração e crescimento, transformação e perecimento, fundo gerador dos seres
2) princípio interno de organização das coisas, disposição própria de cada ser.
3) relativa à substância material das coisas – arkhé.
A physis se opõe ao nomos (regra, lei, convenção, instituição)
TALES DE MILETO
Para Tales de Mileto a água é a realidade substancial da physis: o elemento úmido fundamentaldos processos vitais e dos ciclos materiais da terra.
De acordo com Simplício da Cilícia (c. 490 – c. 560):
Para Anaximandro de Mileto a physis – arkhé não mais se identifica a um princípio material determinado mas, enquanto geradora dos elementos, da multiplicidade, o seu princípio é o ápeiron: o não delimitado. Do ilimitado surgem as coisas individuais que a ele retornam “pela ordem do tempo”, segundo o fragmento de Anaximandro, e pela “justiça”, o princípio da ordenação do todo que determina que a separação da ordem primeira, a individuação é uma espécie de delito que deve ser reparado no retorno ao estado ou fonte inicial.
Para Anaximenes a physis-arkhé é o ar, elemento ilimitado mas não indefinido, qualificado, com seus processos de condensação e rarefação na geração das coisas.
Simplício, Física, trad. Gerd Bornheim (de Diels) - Os Filósofos Pré-SocráticosMarcelo Guimarães Lima
(1) Souza, José Cavalcante de - Para ler os Fragmentos dos Pré-socráticos - introdução de
Os Pré-Socráticos, Col. Os pensadores, 1973, Abril Cultural
Referências:
Chauí, Marilena – Glossário de termos gregos – em Introdução à História da Filosofia, Vol 1
2a ed, 2002, Cia. Das Letras
Peters, F. E. - Termos Filosóficos Gregos, 2a ed., 1983, Fundação Calouste Gulbenkian
Bornheim, Gerd - Os Filósofos Pré-Socráticos, 2a ed., 1972, Ed. Cultrix



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