Platão
O projeto filosófico de Platão tem origem numa experiência traumática: o julgamento e condenação de seu mestre Sócrates em Atenas. A morte de Sócrates afasta definitivamente o jovem de origem e educação aristocrática de sua inclinação primeira para a vida pública. Tamanha injustiça revela a corrupção dos ideais da cidadania, a prevalência de interesses particulares sobre o bem comum, o engano e o auto-engano nas práticas de governo, nas assembleias deliberativas e na opinião geral, tanto na tirania quanto na democracia, a confusão e o desproposito dos discursos e das ações guiadas por falsas ideias e falsos ideais que ocultam motivações que não podem vir à luz por si mesmas, alimentam medo e agressividade, ocultam responsabilidades, agravam os conflitos e as ameaças internas e externas contra a ordem, contra a autonomia da cidade-estado e de seus cidadãos.
Ora, a reflexão sobre a política ocupa o centro da obra de Platão: conhecimento e ação humana, realidade e aparência, ser e não ser, a reflexão ética e a investigação metafísica respondem aos problemas da vida em sociedade, do conhecimento e da comunicação, do significado e finalidade da vida, da criação de uma comunidade na qual a reflexão filosófica possa florescer e guiar os homens para a vida virtuosa que no presente é tolhida pela concupiscência, agressividade e sobretudo pela ignorância.
A filosofia e a cidade-estado realmente existente estão em dissintonia, estão dissociadas, desarticuladas. Cabe ao filósofo diagnosticar, mostrar e propor quando e se possível a correção dos rumos, as ideias justas, verdadeiras, bem como as práticas e as ações que lhes correspondem. Os riscos desta empreitada, Platão presenciou com a sorte que foi reservada a seu mestre Sócrates, injustamente acusado, condenado e morto. E conheceu igualmente estes riscos na própria pele nas suas associações e relações instáveis e perigosas com governos e governantes com os quais tencionou partilhar seus conhecimentos das realidades e finalidades verdadeiras da vida humana e sofreu a prisão, a ameaça de escravidão e o exílio. Falhou, arriscando sua liberdade e vida, mas não se traiu nas tentativas que afinal terminaram por comprovar na adversidade, para os que querem saber de fato, a necessidade imperiosa, permanente, malgrado as recorrentes incompreensões e os conflitos, a importância da filosofia para os homens.
A história da filosofia ocidental, tal como a conhecemos, tem como núcleo inicial a obra de Platão, o legado de seus escritos, a obra exotérica, e seu enorme impacto na posteridade. A filosofia como sistema, no que diz respeito à extensão e articulação de seus temas principais, se inicia com Platão, com a racionalidade metódica que afirma sua autonomia real em face da realidade mundana, o mundo sensível, mundo das aparências o qual deve à razão o módico de realidade que possui como realidade reflexa, isto é, que aspira e aponta para a realidade plena do mundo das ideias, das formas eternas subtraídas ao tempo, à mudança e às errâncias da opinião e da ignorância.
A alegoria da caverna
O mito, a narrativa em Platão serve à exposição dos conceitos filosóficos, das ideias abstratas. Assim a Alegoria ou Mito da Caverna no Livro (capítulo) VII da obra de Platão “A República”, explica a ascensão das trevas do mundo sensível até a luz do conhecimento racional. Um grupo de pessoas habita uma caverna onde estão acorrentadas voltadas para a parede do fundo sem poder desviar a vista e enxergar a entrada da caverna e a luz externa. Na entrada da caverna um fogo projeta sombras do mundo exterior na parede visível. Para os habitantes da caverna, estas sombras são a única realidade que conhecem. Se um destes habitantes escapar de seus grilhões, ao contemplar o fogo, a luz e o mundo exterior, será ofuscado por esse “nova” realidade até que sua visão se normalize e possa reconhecer as projeções na caverna pelo que são verdadeiramente, quer dizer, meras sombras da realidade. O Mito da Caverna representa a realidade humana no mundo sensível, no qual vivemos em meio à escuridão e às sombras, ilusões e projeções que tomamos como a realidade em si.
A teoria das ideias ou teoria das formas
A filosofia de Platão estabelece uma divisão substancial entre espírito e matéria, o mundo material e o mundo espiritual, o mundo da sensação e do fluxo e o mundo da razão e das essências. A essência, a forma ou ideia, é o que em sua natureza podemos conhecer verdadeiramente.
O conceito ( palavra, termo) “árvore” designa toda e qualquer árvore particular, portanto não se identifica plenamente a nenhuma, ou nenhuma árvore particular traduz, representa o conceito de modo completo. Portanto há uma diferença essencial entre o conceito e a coisa ou coisas que caem sob o conceito, isto é que são designadas, definidas e compreendidas pelo conceito, tornadas inteligíveis pelo conceito, pela razão. O conceito traduz, designa a forma ideal, universal, “árvore” enquanto realidade superior e mesmo anterior às instâncias empíricas, as árvores particulares. É a forma que confere realidade essencial às coisas, ao que vemos no mundo sensível, a realidade do particular é reflexa, secundária, dependente da realidade primeira, universal, das formas. A forma, atemporal e a-espacial, portanto sempre idêntica, é a realidade plena, substancial que explica as instâncias particulares de tudo que vemos no mundo da percepção corrente, mundo cuja realidade própria é derivada, como mero reflexo da realidade / identidade plena das formas.
Tomando em conta as concepções de Parmênides e de Heráclito, e influenciado pelo pitagorismo, a síntese platônica aponta com Parmênides para a identidade plena e estável do Ser, como tal objeto próprio do conhecimento. Tomando em conta o fluxo e o Vir-a -Ser de Heráclito, as transformações das coisas, concebe o ser essencial não como uno / único (Parmênides) mas como multiplicidade das essências, das formas no mundo inteligível (M. Chauí). O conhecimento que temos a partir do mundo sensível se organiza em estágios, do mais incerto, mutável, individualizado, da empiria, por meio das imagens, pela doxa (opinião), elevando-se ao mais pleno e verdadeiro: o conhecimento das essências no mundo inteligível, da dianóia, o raciocínio dedutivo, até a intuição intelectual, a nóesis que alcança a ciência plena, a epistéme, a contemplação das próprias ideias.
A Teoria da Ideias suscitou controvérsias, indagações e análises várias na antiguidade, começando na própria academia platônica e desde então na história da filosofia. As formulações de Platão em vários de seus diálogos, apresentam uma teoria em desenvolvimento constante através de seus vários escritos com pontos de obscuridade e soluções teóricas que, por sua vez, ao mesmo tempo que respondem a determinados problemas geram novos. A indagação em Platão sobre a natureza própria do objeto do conhecimento em si, é também teoria do sujeito que conhece: a alma humana, ela mesma por natureza partícipe do universo das formas universais, autônomas, a realidade em si, formas plenas, eternas e incorruptíveis.
A reminiscência: a teoria do conhecimento como teoria da alma
O mundo das essências é o mundo da realidade plena, sempre igual a si mesma, idêntica e incorruptível e como tal, plenamente cognoscível. O mundo das aparências é o de uma realidade reflexa, realidade mutável e portanto sujeita às instabilidades, insuficiências, às ilusões da percepção e da doxa (opinião). A nossa alma racional tem sua origem no mundo das essências e partilha portanto a sua realidade, como elas é imortal. Antes de encarnar-se nos sujeitos materiais, a alma conheceu as essências, a realidade plena. Já no seu invólucro material este conhecimento adormeceu e necessita ser recuperado. Neste sentido, o conhecimento é recordação, como demonstrou Sócrates no diálogo intitulado Mênon no qual em diálogo com um jovem escravo, Sócrates extrai dele as respostas corretas sobre um problema geométrico cuja solução o jovem escravo dizia desconhecer. Se a ordem inicial das perguntas é estabelecida por Sócrates, a indagação se desenvolve a partir das respostas do jovem servente. Ou seja, o conhecimento efetivo reside na alma do escravo e o método socrático, a maiêutica (parto das ideias), apenas desperta o conhecimento latente. Neste sentido, conhecer é atividade da alma racional, é recordar em meio ao mundo sensível, a vida essencial que é origem e destino do humano, vida anterior e vida futura.
Sentido do idealismo platônico
O idealismo platônico pode ser entendido no contexto da passagem de uma cultura de base oral para a cultura da escrita, isto é, da significação, digamos assim, hiper-contextualizada, dependente do sujeito e de suas circunstâncias várias, para o significado “descontextualizado”, isto é, fixado, identificado, autonomizado, válido por si e em si.
A separação sujeito-objeto operada de modo “radical” está na raiz da substantivação dos conceitos como formas / ideias existentes no mundo suprassensível, mundo da realidade como tal, isto é, da identidade para além dos fluxos e contra-fluxos do devir no mundo inessencial das aparências e da matéria em movimento.
Marcelo Guimarães Lima
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