Sócrates e a Filosofia
A filosofia de Sócrates, segundo as representações correntes na História da Filosofia, abandona a temática da Natureza (Physis), central aos filósofos anteriores, e concentra-se no estudo da ação humana (ética e política) e do conhecimento (lógica, epistemologia) : como devemos agir no contexto humano que é o nosso contexto próprio - a vida na e da pólis (a comunidade), e como conhecemos, como distinguimos o verdadeiro do falso. Realiza, portanto, o que podemos denominar de uma espécie de “giro copernicano” na Filosofia Grega Antiga.
Ora, os filósofos da Physis (Natureza) em seus conceitos e expressões fundamentais concebiam a identidade entre a natureza e o humano, representavam a justiça como princípio cosmológico, a dinâmica universal da busca da harmonia e equilíbrio refletida na natureza como na pólis em meio ao conflito das substâncias, elementos, entidades, dos deuses e dos grupos humanos, as classes sociais, os estados, etc.
Certo é que para Sócrates, os resultados das investigações dos filósofos naturalistas eram insuficientes, incertos, improváveis. Criticando a fabulação das cosmologias naturalistas, Sócrates se volta para a “crítica da linguagem”, isto é, o foco no rigor das definições, a fundamentação do conceito como unidade superior e abrangente do diverso das percepções. Podemos dizer que, como para Parmênides, para Sócrates, o pensar verdadeiro desvela, revela o ser tal como ele é.
Ao deixar de lado a temática da coisa (substância) a filosofia socrática se apresenta como filosofia do conceito, como observou A. Laks (1). Ao mesmo tempo, essa filosofia do conceito é também “filosofia da praxis” no universo da pólis, na identidade do conhecimento verdadeiro e da conduta ética.
O método de Sócrates é partir da doxa (opinião corrente) para alcançar a episteme (conhecimento) no processo do diálogo. Nele, as proposições insuficientes e contraditórias terminam por se negarem a si mesmas, conduzem ao impasse e colapso da argumentação anterior, processo no qual o resultado negativo é ponto de partida para a construção do conhecimento verdadeiro, numa espécie de processo de “catarse” intelectual, de “purgação” de (falsos) conceitos.
Se toda a filosofia ocidental, como observou no séc XX o filósofo A. N. Whitehead, pode ser resumida como notas de pé de página à obra de Platão, Sócrates, tal qual Platão nos apresenta em seus diálogos, é claramente o ponto de partida desta história da qual somos ainda, com maior ou menor conhecimento de causa, os herdeiros.
Marcelo Guimarães Lima
(1) André Laks, The Concept of Presocratic Philosophy - Its Origin, Development, and Significance, Princeton University Press, 2018
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