A Sétima Carta de Platão: os desafios da filosofia.

A Sétima Carta de Platão foi, na antiguidade e na história da filosofia em geral, considerada como obra autêntica. Modernamente há uma clara divisão entre os especialistas sobre o assunto, entre os que aceitam e os que negam a autoria do próprio Platão. O interesse do texto é duplo: como relato autobiográfico e como reiteração ou explicação sintética de aspectos essenciais de sua filosofia do conhecimento.

A Sétima Carta de Platão narra as aventuras e desventuras do filósofo no reino do tirano (líder autocrático) Dionísio I em Siracusa e de seu filho e sucessor Dionísio II. Platão foi convidado por seu amigo e discípulo Dion (Deão na tradução de C. A. Nunes), cunhado e conselheiro do tirano de Siracusa, que acreditava poder, com o prestígio e a ajuda do filósofo, despertar em Dionísio o interesse teórico e prático sobre o governo justo e deste modo pacificar e harmonizar os conflitos internos, auxiliar na consolidação do poder de Siracusa para defender e expulsar da Sicília os bárbaros (sobretudo os cartagineses) que ameaçavam o território do tirano na ilha.

Na sucessão de Dionísio I por seu filho, o importante e influente papel de Dion no governo é ameaçado por intrigas e disputas de poder que afinal terminam por opor o conselheiro e o novo tirano. Platão, malgrado sua intenções, é enredado nestas disputas. Sua amizade pessoal com Dion e seu espírito independente que não recua em argumentar diretamente e presencialmente contra as vontades e os planos do tirano da vez quando estes planos lhe parecem errôneos, fazem do filósofo uma presença inconveniente e mesmo um suspeito de participação nas disputas e conspirações de Dion contra Dionísio II.

Mas a motivação essencial de Platão, como caracterizada por Dion em seu primeiro convite, era de mostrar a necessidade da filosofia para a cidade como guia do governante que almejava o equilíbrio e harmonia na vida da polis, para superar as divisões na cidade pelo conhecimento efetivo e a prática dos valores da justiça e da verdade. Para tanto, dirá Platão, seria necessário unir o poder político e a consciência filosófica num único personagem: o rei-filósofo, isto é, o governante iniciado na filosofia, ou o filósofo-rei, o sábio a quem é dada a função de governar.



Platão – Carta Sétima, trad. C.A. Nunes


O prestígio de Platão o fez alvo de disputas entre Dion e Dionísio II, sua noção do dever do filósofo, e sua lealdade ao amigo Dion em perigo, o levou mais de uma vez a Siracusa, malgrado as intrigas, os perigos e o fracasso repetido de convencimento e engajamento real do tirano para a vida filosófica e para o "governo filosófico" da cidade. Com inteligência vivaz mas de pouca profundidade, Dionísio II, chamando para si o prestígio do conhecimento filosófico, chegou a redigir uma espécie de compêndio da filosofia platônica: “obra impossível” na avaliação de Platão pois o essencial de sua filosofia não poderia ser conferida a uma obra escrita qualquer, tampouco por um “discípulo” apressado e superficialmente informado.

Na Carta Sétima, argumentando contra a pretensão de Dionísio II, Platão expõe de modo breve o essencial da sua filosofia do conhecimento, da razão e do ser, e sobre a escrita como veículo da filosofia. 

Para o autor dos Diálogos, escritor de grande talento dramático e narrativo, a obra escrita serve como uma espécie de preparação inicial e chamamento para a reflexão filosófica. A própria forma dos Diálogos escritos, alude à palavra viva e à relação entre o filósofo e seus interlocutores, como uma imagem inicial das verdades essenciais que apenas a plena vivência filosófica será capaz de propiciar.

 Por fixar o que é da natureza de um processo, a escrita contribui para falsificar o conhecimento e afastar a mente do justo caminho. Em última instância, o próprio logos é um caminho cuja a finalidade é a visão da verdade em si, aquela que está além das suas representações, a verdade essencial, plena, purificada das perspectivas particulares, limitadas, dos modos de expressão. A essência é a base e, ao mesmo tempo, o limite da representação.

Marcelo Guimarães Lima









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