O Mito da Caverna - Platão "A República"

 

A caverna de Platão - Marcelo Guimarães Lima, 2022



O MITO DA CAVERNA

Marcelo Guimarães Lima


Em “A República” de Platão, a caverna é o reino das sombras, da escuridão cortada pela luz de uma fogueira que projeta sombras na parede interior: as sombras são a única realidade visível para os prisioneiros acorrentados na caverna, imobilizados numa única perspectiva de visão que somente lhes permite contemplar sombras animadas, reflexos fragmentários de homens em atividade e escutar ecos de suas vozes que atribuem às próprias sombras. Sócrates oferece inicialmente esta imagem, este cenário dramático de um teatro de sombras, como figuração do que ocorre aos homens quando falta a paidéia (educação, formação). “Estranha imagem e estranhos prisioneiros”, diz Gláucon. “São como nós” responde Sócrates.

Na observação de Heidegger (1), no Mito da Caverna a paidéia (educação) está relacionada à aletheia (verdade), à verdade como processo de desocultamento do ser e a narrativa aponta os caminhos, as fases do drama da alma até alcançar a visão direta da luz no mundo exterior. Luz que proporciona a visibilidade reflexa das coisas, e é símbolo daquilo que descortina a realidade ideal das essências, cuja fonte última é a imagem do sol como figuração da suprema realidade, a essência das essências: a Ideia do Bem (perfeição).

Um prisioneiro que escapasse do confinamento na caverna, diz Sócrates, teria grandes dificuldades iniciais de adaptação à claridade do mundo externo. Seria uma experiência de adaptação de início penosa, ao término da qual o prisioneiro, reconhecendo as formas visíveis, formas plenamente iluminadas da realidade, não mais poderia se readaptar ao mundo obscuro da caverna e seus sombrios simulacros. Em tal caso, retornando à escuridão da caverna a fim de alertar seus companheiros, sua nova inadaptabilidade ao mundo das sombras seria considerada pelos habitantes da caverna como incapacidade em consequência de sua evasão ao mundo externo. Qualquer tentativa dele de libertar os prisioneiros e guiá-los para o mundo externo seria considerado uma afronta a ser punida com a morte.

A imagem do prisioneiro escapando da caverna para o mundo externo representa a ascensão da alma ao mundo inteligível, observa Sócrates. Tal é o sentido da alegoria ou mito dos prisioneiros na caverna. A prisão iluminada por uma fogueira é o nosso mundo visível habitual, mundo de sombras que tomamos pela realidade em si. Ora, o retorno após a ascensão ao mundo das ideias, assim como a próprio movimento de ascender ao mundo inteligível, supõe adaptações e readaptações que podem ser fontes de dificuldades e de vários desequilíbrios ocasionais. Para bem compreendê-los, é preciso saber a partir de qual direção ou perspectiva estes se manifestam. Aqui entra a paidéia (educação) como arte de direcionar a alma para mundo inteligível, conversão da alma do mundo instável do vir-a-ser (movimento, geração) para a realidade plena do ser como tal. 

A paidéia é esta conversão que pressupõe a capacidade anterior de visão das ideias a qual necessita, para efetivar-se no mundo material, de correto direcionamento. O critério para elaborar a educação no Estado Justo, isto é, bem governado, orientado pelo conhecimento filosófico (tema central de “A República”) é saber quais direcionamentos, para o ser ou para o devir, ao mundo inteligível ou ao mundo sensível, para o conhecimento ou para a doxa (opinião), são próprios dos vários saberes, disciplinas, perspectivas, atividades, etc, na vida da cidade-estado e na formação de seus cidadãos.

Heidegger aponta que a “alegoria da caverna” não se limita a descrever situações contrastantes entre o espaço da caverna, mundo das sombras, e o mundo exterior, o pleno da luz, mas apresenta o processo das transições entre os dois contextos, processo que exige adaptações mais ou menos lentas e penosas. Estas transições não são apenas mudanças de pontos de vista, mas dizem respeito ao homem na sua totalidade ou na sua essência, elas pertencem portanto ao domínio próprio da paidéia (educação. formação, orientação). Aquele que ascendeu ao mundo inteligível deve guiar os que ainda permanecem no contexto das sombras.

A visibilidade primeira, essencial segundo Sócrates (Platão), é a das ideias, da qual deriva a visibilidade secundária das coisas no mundo da vivência cotidiana. São as ideias que nos permitem conhecer o ente determinado como tal na sua aparente (e enganosa) acessibilidade imediata. Casas, árvores, mesas, utensílios, etc, etc, nos são acessíveis graças às essências que preexistem e orientam o conhecimento no mundo sensível, e a respeito das quais a experiência mundana pouco ou nada aparenta saber. Esta ilusão do imediato sensível resulta na prisão do cotidiano, a imagem da caverna, que é a condição corriqueira dos sujeitos que ignoram a situação real em que se encontram num mundo onde as sombras se dão por realidade única. 

A alegoria da caverna é portanto simbolização da experiência mundana e dos embates e desequilíbrios que nela surgem a partir do contraste apresentado na narrativa entre ocultamento e revelação (aletheia) da realidade em si, a realidade primeira do mundo inteligível para além da realidade secundária da matéria e do corpo. A alegoria apresenta a busca do conhecimento como transformação da relação com o real. Ela narra um processo de revelação, ascensão por estágios e eventual regressão entre os domínios das sombras e das luzes a partir da liberdade inicial de movimentos adquirida pelo prisioneiro no interior da caverna até sua trabalhosa ascensão e adaptação à realidade exterior. Este trânsito é a experiência da alma em busca do conhecimento, a partir da escuridão inicial, passando pelo lusco-fusco da caverna iluminada pelo fogo e suas sombras incertas, até a claridade solar do mundo exterior pela qual se desvelam e brilham com total nitidez as ideias, as formas originárias, as essências. 

Heidegger observa no Mito da Caverna a transformação operada por Platão no conceito de verdade. Como afirmava Heráclito: “a physis (natureza, totalidade do ser) ama esconder-se”. O conceito original da verdade no pensamento grego, designado pelo termo “aletheia” (literalmente: o não-esquecimento), quer dizer: o des-velamento, des-ocultar-se do ser, um processo contínuo, dinâmico, de vir à luz daquilo que é, a partir  de um fundo perene de obscuridade. Uma espécie de solidariedade entre o objeto  do conhecimento e o ato de conhecer caracteriza o pensamento grego inicial no qual num mesmo movimento o ser se revela e é revelado, o conhecimento e o conhecido são como polos ativos de uma unidade dinâmica. 

Na dialética da ascensão ao conhecimento das essências exposta no Mito da Caverna, segundo Heidegger, a contemplação da verdade como adequação entre o pensamento e a realidade, cujo critério é a correção das representações (critério da certeza), a subsunção do objeto na representação, introduz uma espécie de univocidade e unidirecionalidade na relação de conhecimento. A certeza é do domínio da razão, assim como a dialética é ela mesma técnica de direcionamento da alma para o conhecimento.  O conhecimento se formaliza pelo critério da coincidência entre a representação e o representado na representação, cuja prioridade passa então a dominar o processo do conhecimento e estabelece, segundo o pensador alemão, o destino metafísico do Ocidente: o que Heidegger designa por “esquecimento do ser”, que vai estabelecer no desenvolvimento histórico a prioridade das disposições do sujeito do conhecimento sobre o objeto conhecido, em última análise, a prioridade da técnica, isto é, a disposição do real para a ação técnica como dimensão fundamental do conhecimento, a manipulação da realidade pelo sujeito com o consequente impasse e crise tanto filosófica como civilizacional do nosso presente no qual o domínio técnico da natureza e dos homens se realiza num contexto de crise de significado e sentido. A técnica moderna parece impor seus ritmos e direcionamentos próprios os quais no atual contexto sobrepassam a capacidade humana de prover significado com a urgência necessária às transformações em curso. 

No pensamento de Heidegger, elaboração e fonte dos existencialismos contemporâneos, a experiência do ser e da verdade pode se dar igualmente, por exemplo, na obra de arte, nas experiências-limite vivencial e emocional dos sujeitos (angústia, cuidado ou preocupação, etc). Tantas dimensões nais quais algo como uma revelação / conhecimento do ser e da verdade pode ocorrer e que ultrapassam os quadros da representação intelectual consagrada na tradição metafísica ocidental da verdade como adequação. A compreensão de um sentido original e originário do pensamento filosófico e seu objeto, da experiência do pensar e a do ser, é o objeto das investigações do pensador alemão sobre a filosofia grega pré e pós-socrática e do papel fundamental do platonismo para a história da filosofia e além dela para a autocompreensão e autoconformação da civilização europeia e do mundo contemporâneo. 

Para Heidegger, a importância do Mito da Caverna está na exposição da paidéia platônica, a ascensão da alma das trevas à luz, e sua relação ao conceito platônico de verdade de seminal importância para a filosofia desde então e que está na raiz dos desafios atuais da humanidade. Pensar o ser e a verdade na totalidade e atualidade da história do pensamento é o “enigma da esfinge” do nosso tempo. Nesta perspectiva, Platão e os gregos são, ao mesmo tempo, nossos ancestrais e nossos contemporâneos.



(1) Heidegger, M. - A teoria platônica da verdade, in  Marcas do caminho / Martin Heidegger ; tradução
de Enio Paulo Giachini e Emildo Stein; revisão da tradução de Marco Antônio Casanova. - Petrópolis, RJ : Vozes, 2008. - (Coleção Textos Filosóficos)




Comentários

Postagens mais visitadas